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Os Homens e as Asas

apontamentos (nem Católico, nem Gnóstico)


1

A Gnose permite caminhar até meio da Ponte.


Sem um impulso gnóstico, inexplicável por nenhum processo de acumulação cultural e sem um ciclo de identificação com o Divino, os primeiros passos na Ponte são estéticos mas não chegam a uma transformação.


A Gnose, Beatriz, não só nos leva até meio da Ponte como permite mesmo contemplar a margem de lá. “Deus está em mim” ou “Eu sou em Deus” é essencial para sair da margem-Alfa do grande horizonte anterior, a imensa superfície de carbono e hidrogénio, fósforo, ideias, afectos/desafectos e tempo cronológico.


2

Mas só a Graça nos dá asas para chegar ao final da Ponte. O completar da Obra é uma dádiva, uma oferta, como uma enigmática chuva no deserto.


A identificação gnóstica “Eu sou em Deus” precisa de ser complementada pela Graça. E a Graça vem de Outra Vontade, não de mim.


3

A margem-Ómega, o final da Ponte, é acessível pelo coração entregue, o coração alado, o coração-diamante…… surrender.


Mas entregue a quê? Asas de quem?


O pequeno coração quer voar no espaço e dissolver-se no Grande Ímane Cósmico, no Coração Divino, o motor imóvel de toda a verdade no Ser, o centro que nos permite dizer: Eu sou em Deus.


Esta dissolução necessita de uma veste para a consciência, uma mudança de figura: uma transfiguração.


Mas uma transformação gnóstica não é a Transfiguração-Paraíso.


4

Para estar perante a Grande Face é necessário uma Transfiguração. Que é uma revelação, uma dádiva. Para estar perante a Grande Face a consciência e a Alma necessitará de novas vestes tecidas pelos Ardentes, os Serafins, segundo mandatos supremos aos quais nenhuma Ordem tem acesso.


A Gnose transforma, activa os corpos superiores, liberta das grilhetas planetárias, faz da nossa vida um vinho raro, permite conhecer as coisas como Deus as conhece.


Mas a Transfiguração é a descida das vestes de velocidade supra-lumínica, as vestes-paraíso.


Estas vestes são as Asas.


E são uma oferta do Altíssimo. Não é um alcance - de baixo para cima - mas uma descida, uma metanóia.


Pode o homem - mesmo o Iniciado - fazer nascer asas em si-próprio? Não creio.


5

Porque os últimos degraus não são de conhecimento, nem de rito, nem de “activação”, nem de nenhuma operação conhecida. Na verdade, a partir do meio, a Ponte desfaz-se gradualmente em uma Luz Desconhecida, um enigmático-familiar.


Os últimos degraus não são de substância conhecida ou conhecível pelo reino humano. São degraus da “Luz da Luz”, Lúmen de Lumine.


Os últimos degraus são uma transfiguração cuja operação não é do domínio do Universo, nem da consciência neural, nem do corpo de luz, nem de nenhuma Hierarquia.


É uma oferta do Grande Ser ao pequeno ser.


6

O ser em ascensão dissolve-se no Coração Cósmico. Isto é: dissolve o que não pertence à Luz da Luz.


Mas o Senhor não se dissolve no coração do ser humano. Por isso Ele permanece o Doador Eterno.


7

Ser admitido ao seio do mistério, a entrada no Coração do Divino, é uma oferta do Senhor, não o resultado de uma construção, nem de uma operação.


Conhecer os pesos, os números e as medidas dá acesso à mente divina e aos jardins do Templo. Mas só a Graça nos levará ao Altar da Presença.


8

A construção prepara, a gnose alinha e funde os veículos, o rito abre comportas verticais mas só o Coração Maior receberá o homem nos níveis superiores.


9

E o ser que finalmente somos e seremos está no Coração. Um coração que nos é invisível, que está além do mero sentimento, mas que constitui um telescópio, um elevador directo para o Grande Centro Atractor.


10

O coração alado é como um Olho em Chamas, disparando uma flecha de fogo para dentro e para cima.


Uma flecha como um raio visual dirigido directamente ao Coração Divino.


Mas a resposta, a admissão, permanece sempre do lado do Grande Outro.


11

Por isso, como os católicos, sei que dependo inteiramente da Graça.


12

Ascending - Brian Eno



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